O Juiz Desembargador Osório do Campo meneou a cabeça confirmando a sua anuência e aprovação...,Solato estava a adorar a conversa...nem bem sabia como se dera a feliz coincidência que resultara em toda aquela atenção por parte do Meretissimo...e quanto ele já aprendera com ele em escassas 2 horas de conversa contínua?!
O Homem era um portento Juridico! Como que a sua energia vital se tinha por fim canalizado para o Mundo do Direito de um modo absoluto...aliado à experiencia dos seus 85 anos e à sua lucidez, digamos que estava no ponto «G»....sem querer com esta referencia um pouco brejeira ofender o Sr.Dr.Osório do Campo.
Atormentava-o porém um pequeno pormenor que tinha surgido há dias...fruto do uso das novas tecnologias...uma antiga Colega de Faculdade...de nome Belisina tinha-lhe mandado um mail...ao que parece tinha-se dado ao trabalho de o encontrar e tentar o contacto e agora que este estava restabelecido...queria à viva força reencontrar o Antigo Colega...
«Eu acho que o Sr.Dr. não deve ir encontrar-se com ela!» afirmou peremptório o Solato...
«Ora,ora meu Caro...o sr.parece a minha mulher...ela acha que isto só pode ser fruto de uma curiosidade mórbida...eu acho que não...foi-me lançado um desafio...a minha vida actual é feita disto mesmo...de pequenos desafios e de grandes deambulações juridicas...actualmente até estou a orientar uns Advogados que querem anular uma escritura...é de caras!...»
E dai abandonava as deambulações liricas e recomeçava na «diarreia» juridica...e o Zé ouvia atentamente e quase que partilhava do fenomenal entusiasmo do Sr.Dr.Juiz....
Perto da porta passara de novo Orquidea de Mora a dona da Estalagem onde este episodio se desenrolava...Orquidea já não estava no seu «prime time»...acho que ultimamente até se desleixava voluntáriamente...é fantástico como fácilmente compreendemos os mitos e lendas associados às Mulheres Feiticeiras...as mulheres vivem mais que os homens...e enriquecem a sua personalidade de um modo diferente ao envelhecerem...o Juíz enveredara pelas suas paixões de juventude...a Lei e Belisina...e Orquidea pelo estudo do comportamento humano e pelo ocultismo...
A proximidade da eternidade...que o avançar da idade nos traz...fomenta uma curiosidade quase morbida pelo mundo novo que se aproxima...assim sentia Orquidea de Mora...de ascendencia espanhola....fruto...segundo contara do desvario de um dos Homens Ilustres da pequena aldeia de Iberia...o seu Avô...ou Trisavô...teria sido um dos Monges do Convento Eremita que florescera no meio daquela paisagem inóspita e deserta de almas...sabia-o por acaso...porque um dia fora visitar o convento...ou o que dele restara...e os seus olhos tinham caido sobre a imagem a óleo do Abade Mor...carinha chapada desta nossa Orquidea...verrugas e tudo...
Mais...numa dessas noites de verão que promovem o mistério e alimentam a imaginação ao passear pela mata que rodeava o eremitério...podia jurar que tinha sido possuida por uma alma do além que de tão familiar lhe tinha por fim confirmado as ilustres origens...
Tudo isto sabia Solato...mas não o Juiz Osório do Campo...embora nenhum dos dois suspeitasse que a boa senhora passara precisamente no momento em que do Campo confessara ao Zé que tinha de satisfazer a sua mórbida curiosidade de reencontrar Belisina...
Orquidea, discreta e habituada pelos anos de profissão a guardar os segredos dos hospedes mais indiscretos prosseguira para os seus aposentos, registando apenas com apreço a nova Amizade dos 2 homens.
Do quarto número«6» porêm veio ruído de passos e Solato que tinha a sua vetusta e respeitavel Senhora Mãe a seu cargo teve de se despedir apressadamente do Desembargador para acudir à insónia da sua progenitora!
«1.30 da manhã...como o tempo voa...meu caro Solato...gostava imenso de continuar este nosso «Tete-A_tete» mas tem razão é demasiado tarde...muito boa noite!»
«Muito boas noites senhor Dr.e até amanhã...muitissimo obrigada pelas suas palavras reconfortantes!»
Solato entrou no quarto «6»...a venerável senhora deambulava sem sono pelos aposentos...estava como era seu hábito disponivel e desperta para uma breve conversinha nocturna com um dos seus rebentos dilectos...
Em tempos ela própria tinha sonhado em se tornar Freirinha...casta e pura...dedicada ás orações...cumprira a sua missão de Mãe e de Mulher e agora via-se recompensada pelas crises de gota, dedos deformados...dores da cervical e lombar e pelas indisposições nocturnas...ás vezes pergunto-me se não tirava um pouco de gozo em provocar a intriga entre os filhos e não só...como não a tinha conhecido em jovem...apenas a podia avaliar pelas atitudes que tinha depois de ultrapassar a bonita idade de 70...altura mais ou menos em que a tinha encontrado pela primeira vez...sempre notara o zelo excessivo a dedicação quase doentia do Solato pela sua Mãezinha...com o tempo compreendera que em certos aspectos ele tinha razão...mas o modo obssessivo com que assumia a fiscalização das actividades da sua Progenitora faziam-me perder a paciência bastas vezes...e perder a serenidade e boa vontade...bastas vezes quem nos acompanha prejudica a nossa imagem e relação com o próximo e neste caso era óbvio que a obssessão do Solato tornava a Mãe D.Reencarnação Encarnada do Espirito Santo e Olivera...numa companhia fastidiosa e maçadora...receavamos sempre estar a arranjar lenha para o nosso próprio auto inquisitório...sim porque acredito piamente que esta senhora se possivel seria a reencarnação de Torquemada...que me perdoem o facto de poder estar a errar...a pobre mulher fustigada por sucessivos e graves desgostos permanecia agora uma entidade com algum porte...mas semelhante a um sinistro «sugador de almas» dos contos de J.K Rawlings...
Para a amparar tinha Solato contratado uma senhora de nome Honorata Gentil...muito bem avontadada...muito cordata e que acreditava em Lobisomens mas não em Vampiros...porque se lembrava que em miuda existiam homens que à meia noite se tornavam lobos...fantástico não?!
Esta senhora morava perto de Solato e era a acompanhante ideal para a sua Mãezinha Querida nos momentos em que ele não a podia afobar de atenções e cuidados...
Eu estava literalmente farta daquelas duas personagens...começara de novo a reagir de modo irracional às solicitações exageradas por parte do Solato...entrara na rotina do cansaço...deixara de tolerar Reencarnação Encarnada...Honorata Gentil e Solato...cada um a seu modo...e embora reconhecesse que todos eram boas pessoas...detestava as suas prepotências que me impediam de querer sequer auxiliar as pobres almas como qualquer pessoa de bem deveria fazer.
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