terça-feira, 17 de agosto de 2010

Luna a Louca

Um dia, algures num Tribunal distante e perdido no vazio da imaginação de qualquer um de nós...houve uma audiência fantasma...
O Juiz, o Procurador...e uma Mulher a quem decidiram rotular de «A Louca»...
De facto a Mulher vestia de preto...tinha um olhar vazio e triste...os cabelos escorriam sem brilho pelas costas...a sua pele era pálida e as mãos divagavam em miriades de tiques incompreensíveis...não sorria.
Quando falava a voz saia de modo pouco timbrado e inexpressivo...
Não chorava...
Não sentia...
Enquanto os olhos do Juiz e do Procurador brilhavam...os olhos da mulher pareciam a janela para uma alma transparente e sem história.
E quando respondia às perguntas feitas alternadamente por um e por outro...as palavras saiam brancas...como se nem palavras fossem...como se fossem palavras escritas num velho diccionário daqueles já amarelados que ninguém se interessa em consultar...
O Juiz pausadamente registava as respostas que a mulher fantasma emitia para o eter...e dava-lhes talvez o sentido que nelas via...ou colava-lhes em nota de rodapé a pequena etiqueta que alguém algures tinha decidido colar à alma da Mulher a quem a partir de agora vou chamar Luna.

Luna tinha a doença dos Deuses...a doença que afligira Julio Cesár e outras personagens históricas...e tinha a doença que a nossa sociedade impõe aos esquecidos, aos pobres, aos que não tem a sorte de ter um vencimento ao fim do mês...aos que nasceram sem ser desejados...

Mas a Luna acrescia o sintoma de de tempos a tempos explodir...nela se digladiavam conceitos inconciliaveis....tristezas profundas...sonhos por realizar e tudo isso a tornava distante e reservada...como se fosse uma especie de Muralha da China que erguera para se salvaguardar de mais dissabores.

Tinha-se apaixonado...ou não...não parecia ter essa capacidade...pelo menos se estivessemos apenas em frente dela durante escassos 45 minutos....

Dessa paixão...tinha nascido uma criança...

O problema todo porém era ser pobre e consciente...tinha ficado com tanto receio de perder a criança ou de a prejudicar por ser doente que tinha procurado auxilio social e nessa sequência o pior dos seus receios tinha-se concretizado...recebeu ordem do Tribunal para entregar a criança a uma instituição de acolhimento apropriado...

Se não tivesse pedido auxilio nada disso teria sucedido...pensava ela...e pensavamos todos nós...e os olhos vazios de luar vagueavam pelo eter sem sentido e sem local onde poisar...mas olhava o Procurador de frente quando completamente sózinha e de pé a avaliavam de alto a baixo...em circunstâncias em que qualquer ser humano normal poderia claudicar pela pressão...ela mantinha a serenidade do seu coração vazio de emoções...

Eu não gostei de Luna quando a conheci...assustou-me a sua história...o seu vazio...e por isso mesmo senti que devia ajudá-la.

Há sempre duas faces de uma moeda...e o ingrato papel dos Juízes é decidir qual é aquele sobre o qual pende maior número e qualidade de provas...não se pode decidir ao acaso...mas o ser humano é um fervilhar de bondade e de maldade...e bastas vezes quem tem razão não tem prova e quem não a tem prova tem...

Luna não tinha prova...não sei se tinha razão...

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